Apesar desta quarentena me estar a fazer muito bem tenho sentido uma falta muito grande de ter momentos sozinha, conseguir meditar e praticar yoga no silêncio sem distrações.
O meu filho que é um menino que precisa de muita atenção, não brinca sozinho, quer sempre companhia, nem a sesta faz se não estiver ao lado dele.
Podem dizer deixa-o chorar.
Mas uma coisa que aprendi após ser mãe é que devemos fazer o que o nosso coração e intuição diz... ele por algum motivo precisa desse conforto.
Acredito que vimos a este universo para evoluir, ele desafia-nos para curarmos as feridas emocionais que temos e caminharmos em direção ao nosso coração.
Desde criança que me lembro de gostar de estar sozinha, eu e eu, apesar de estar sempre rodeada dos meus primos, quando ia para casa adorava estar a fazer vilas da polly pocket, tudo o que era pequenino e minucioso era a minha praia.
Sempre me encantei com livros, lia um em poucos dias, por volta dos 11 anos ia com a minha amiga joana muitas das tardes da semana à biblioteca municipal buscar e entregar livros, porque apesar de termos muitos, queríamos mais e mais.
Recordo-me perfeitamente de quando fui para a secundária adorava as aulas de religião e moral e numa determinada data, um Padre foi lá falar connosco e aquelas palavras ressoaram tanto mas tanto em mim. Passadas umas semanas fui com o Teatro da Paróquia (o qual pertencia desde dos 10 anos) a Braga e ficámos a dormir num mosteiro. Aquele silêncio, quando nos juntávamos em círculo a rezar e a falar, tudo começou a preencher o meu coração. Comecei a ir à igreja de vez em quando ao final da tarde, sozinha, sem o dizer a ninguém.
Um dia fui ter com a minha mãe ao trabalho dela. Ela trabalha numa secretaria que tem um guichet alto com vidros, aí aproximei-me, coloquei os meus braços em cima do guichet, inclinei-me e comecei a contar-lhe: o quanto as palavras do Padre ressoaram em mim, como uma mensagem vinda de Deus, o estar em silêncio, tudo me fazia sentir o coração cheio. Penso que nesse primeiro momento, o que lhe deve ter passado pela cabeça é que eu devia estar apaixonada pelo padre (que até era novo e algo engraçado). Mas com algum receio disse-lhe o que me ia na alma: queria fazer um retiro nas férias de verão, porque a ideia de ser freira de clausura não me saía da cabeça e do coração. E pronto aí ela ficou mesmo assustada e preocupada. Os meus pensamentos iam mais longe do que ela imaginaria. Após este dia, foram algumas as conversas sobre o assunto e a verdade é que este pensamento foi-se dissipando.
Quando entrei para a faculdade, como me imaginava e sonhava com o futuro era uma mulher sozinha, a dedicar-me à minha carreira e a viajar muito sozinha. E de facto para mim o desafio não era viver ou viajar sozinha mas sim acompanhada.
Hoje, em quarentena desde 11/03 o que mais falta sinto é de estar completamente sozinha, de mergulhar nos meus livros, práticas e pensamentos. Esta falta, ao longo dos últimos dias tem-me causado alguma angústia. Se por um lado estou imensamente feliz e agradecida pelo tempo que tenho aproveitado com o meu filho por outro falta o Meu Tempo.
Hoje acordei, e senti que as peças se encaixaram: o Universo colocou-nos a todos no local onde deveríamos estar a passar esta quarentena para evoluirmos! E eu vim para aprender a estar por inteiro, em verdade e a expressar todas as minhas emoções com os outros, tal como estou sozinha, saindo assim da minha zona de conforto. E o meu filho vem recordar-me diariamente que tudo é uma questão de equilíbrio e que no meio do caos e da multidão também posso ser eu.
E termino este texto com o meu filho ao meu colo a dar-me beijinhos, abraços e a falar: um caos de amor que me deixa o coração quente, feliz e preenchido.
Um dia feliz.
💖🌈💫
Maria Costa

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