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Contos

O dia nasceu com um sol brilhante, mas sente-se um leve vento fresco, como se tratasse de um leve suspirar do nosso amado que percorre todo o corpo. 

Estamos no mês de setembro e ela luta entre a correria da manhã para não chegar atrasada ao trabalho e o manter um despertar calmo e tranquilo ao seu filho. 

São 9h30 da manhã e já atrasada depara-se com uma imagem que lhe esmaga o coração. Está a conduzir, ao telefone do trabalho e nesse instante, sabe que do outro lado do telemóvel estão a falar com ela mas não ouve. A sua atenção ficou presa naquele casal. 

O senhor apoia firmemente com o seu braço direito a mulher pela sua cintura não muito estreita e com a mão esquerda o braço direito. A mulher a cambalear e sem forças tenta atravessar aquela estrada inclinada que vem das urgências do hospital com a ajuda do homem, ele dirige-a para um lado e ela inclina-se para outro e sem motivo aparente, o braço direito da mulher que estava pendurado ao longo do seu corpo, impulsiona-se para cima e com uma força que escondia ter começa a bater no homem: na cara, no corpo, onde consegue. E ele, suavemente agarra na face da mulher, acalma-a e apoia a sua própria cabeça no ombro da mulher. Seguem caminho em passos curtos e instáveis até um banco de jardim. 

Ali sentam-se, ela olha perdidamente para o horizonte, ele coloca os cotovelos nas suas pernas e com as mãos que aparentam ter um trabalho pesado tapa o rosto. Passados uns segundos olha para a sua mulher que continua perdida no horizonte. 

O dia seguia, as pessoas que viram nada fizeram, nem questionaram, seguiram as suas vidas na azáfama do tempo que é sempre curto e dos seus problemas que são sempre os seus. 

A noite tinha sido longa, não se alimentavam desde do dia anterior, a mulher esteve internada e ele manteve-se ao seu lado, sem sequer comer. Estavam cansados e exaustos. Ele tinha comprado um croissant para a mulher que ainda estava debilitada e em jejum, tal como ele, e pensava nas costeletas que tinha em casa para grelhar e que acompanhariam com batata e tomate. Após o homem ter contado em poucas palavras o que tinha acontecido nas últimas horas e na sua preocupação com o que dar de alimento à sua mulher, a jovem mulher que até ali tinha ficado com um sentimento de querer ajudar aquele homem da agressividade da mulher, sentiu raiva pela possível incompetência de uma instituição, compaixão por aquele casal, que num momento complicado mantém-se unido e o amor que aquele homem nutria pela sua mulher mesmo quando a sua alma e consciência não estavam presentes no seu corpo físico. 


Maria Costa




Comentários

  1. Na maior parte das vezes dizemos que as palavras são traiçoeiras. Hoje acho que as tuas foram certeiras! Quando a escrita nos consegue transportar para outros locais e deixar-nos com tantas sensações é porque está tudo certo, tudo dito… Well done Mary!

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